Mapa do Império Russo

A ascensão e a queda do Império Russo

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O Império Russo durou de 1721 a 1917, compreendendo um território de quase 36 milhões de quilômetros quadrados em dois continentes: Europa e Ásia. Sob um governo autocrático, sua população de 170 milhões de habitantes era originária de mais de 100 origens étnicas diferentes.

Dominando vizinhos na Europa e na Ásia, as proporções atingidas pelo Império Russo no final do século XIX rivalizavam apenas com o Império Britânico. Mas como esse império foi formado? E o que levou a sua queda? É isso que vamos trazer com esse texto!

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Império Russo

O Império Russo foi formalmente estabelecido em 1721 com a vitória de Pedro, o Grande (no poder de 1694 a 1725) na Grande Guerra do Norte (1700-1721) contra os impérios sueco e polonês. O anúncio da formação desse império ocorreu em 22 de outubro de 1721 com a celebração do Tratado de Nystad.

Ao derrotar o Império Sueco, que era a principal potência militar do continente europeu na época, os russos assumiram esse papel. Além disso, conquistaram diversos territórios bálticos e um porto com ligação direta à Europa.

Desde o início, a cultura e a organização social europeias serviram como inspiração para o Império Russo. Pedro modernizou as forças armadas, a educação, o governo e até mesmo os gostos, roupas e costumes da nobreza seguindo modelos europeus. Pedro ainda transferiu a capital de Moscou para São Petersburgo.

Catedral de Santo Isaac em São Petersburgo.
Imagem: Catedral de Santo Isaac em São Petersburgo.

Expansionismo

O expansionismo foi uma característica marcante do Império Russo. Diferentemente das potências europeias que navegaram por mares e oceanos para estabelecer colônias em terras distantes, o expansionismo russo expandiu-se para territórios contíguos ao seu próprio.

Em outras palavras, a expansão ocorreu por toda a Eurásia, abrangendo os territórios das atuais Polônia e Lituânia a oeste, a Sibéria a leste e, ao sul, em direção à região do Cáucaso bem como aos impérios Otomano e Persa. No auge do seu poder, o Império Russo englobou quase um sexto da massa terrestre do planeta.

O Império Russo ocupou os territórios que atualmente correspondem a Rússia, Ucrânia, Bielorrússia, Moldávia, Finlândia, o Cáucaso (Armênia, Azerbaijão, Geórgia), Ásia Central (Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Turcomenistão, Uzbequistão), as Repúblicas Bálticas (Lituânia, Letônia, Estônia) e partes significativas da Polônia e da Turquia.

Um elemento associado ao expansionismo russo foi a política de incorporação e assimilação das elites nativas nessas regiões vizinhas. A justificativa para essa política pode ser encontrada na ordem de anexação do czar Alexandre I de 1801 para o principado georgiano de Kartli-Kakheti:

“Não para o aumento do nosso próprio poder, nem para a ganância ou a expansão das fronteiras de um Império já poderoso no mundo, mas apenas por amor à humanidade.”

A ideia dos russos aqui era de que conquistar tais territórios também beneficiaria os povos conquistados. Era como se o conquistador estivesse seguindo uma missão humanitária.

Os russos investidos de objetivos nobres, pretendiam proteger, civilizar e educar os povos asiáticos infantis no caminho do império. Sem, no entanto, deixar de lado o uso da violência contra esses mesmos povos.

Desenvolvimento político, econômico e social

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Após a morte de Pedro em 1725, os governantes subsequentes continuaram a moldar culturalmente o Império seguindo os padrões europeus e a prosseguir com o expansionismo. Em nome da expansão territorial uma série de guerras foram travadas, como a Guerra da Sucessão Polonesa (1733-1735), a guerra com o Império Otomano (1734-1739), e a Guerra dos Sete Anos (1756-1763).

Catarina, a Grande, cujo período de reinado foi de 1762 a 1796, por exemplo, expandiu o sul do Império Russo até o Mar Negro e a Crimeia, adquirindo ainda partes da Bielorrússia, Ucrânia e Polônia.

Catarina promoveu também as ideias iluministas. Ela, por exemplo, se correspondia regularmente com influentes pensadores iluministas, como Voltaire, Diderot e Jean Le Rond d’Alembert. Contudo, seu apoio ao iluminismo encontrou seu fim com o início da Revolução Francesa. Ela perseguiu representantes do movimento que ela mesma ajudou a criar.

Mesmo que ao final de seu reinado, o Império Russo fosse um dos atores mais poderosos no cenário mundial, persistiam problemas fundamentais: o exército dependia da coerção; a economia era primitiva e se baseava na servidão; a incapacidade de assimilar novas nacionalidades minoritárias; e a divisão cultural entre a elite europeizada e a população não ocidental.

O filho de Catarina, Paulo (no poder de 1796 a 1801), sucedeu-a, mas foi mais tarde deposto num golpe de estado devido à sua corrupção desenfreada e à sua resposta reacionária à Revolução Francesa. Já a ascensão do filho de Paulo, Alexandre I (neto de Catarina, a Grande), inaugurou um novo século e uma nova história da Rússia imperial.

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O Império Russo como potência europeia

Durante seu reinado de 1801 a 1825, Alexandre I foi derrotado por Napoleão nas batalhas de Austerlitz (1805) e Friedland (1807). No entanto, na Guerra de 1812, o Império Russo saiu vitorioso ao repelir a invasão de Napoleão e avançar seus militares rumo à Paris.

Com isso, o Império Russo se tornou uma das principais potências europeias, desempenhando um papel crucial no redesenho da Europa durante o Congresso de Viena em 1815. Foi com este acordo que a Polônia e a Finlândia foram cedidas à Rússia.

Alexandre I faleceu em dezembro de 1825, desencadeando uma crise dinástica. Diante desse contexto de incerteza, surgiu a oportunidade para um grupo de revolucionários tomar o poder com o objetivo de transformar o Império em um estado constitucional, eram os dezembristas.

Mesmo derrotados na rebelião de 26 de dezembro de 1825, esse grupo influenciou revolucionários nos anos subsequentes e afetou a legitimidade do reinado de Nicolau I (no poder entre 1825 e 1855), sucessor de Alexandre I.

Como novo imperador, Nicolau I levou os dissidentes à clandestinidade e utilizou sua polícia secreta e implementou a censura na imprensa.

Aproveitando seu papel dominante na Europa, o Império Russo fez recuar as reformas políticas e as revoluções de 1848, que demandavam o constitucionalismo. Nicolau I, por exemplo, reprimiu revoltas na Hungria, instigou a Prússia a rejeitar uma constituição liberal e reduziu a Polônia a um estado de província russa.

O enfraquecimento do Império Russo

Apesar de ter alcançado tal poder a ponto de influir decisivamente em outros Estados, a capacidade do Império Russo de manter essa supremacia enfraqueceu ao longo do tempo.

Sinal desse enfraquecimento foi a derrota do Império Russo na Guerra da Crimeia (1853-1856), travada contra o Império Otomano, a Grã-Bretanha e a França.

Na guerra, a Rússia perdeu sua base em Sebastopol e a partir disso emergiram questionamentos sobre a capacidade do Império Russo em defender uma grande fortificação em seu próprio território.

Dessa forma, Alexandre II (no poder de 1855 a 1881), sucessor de Nicolau I, implementou as Grandes Reformas, abrangendo as forças armadas, o judiciário, as finanças, a educação, o governo e, de maneira significativa, a abolição da servidão em 1861.

Cerca de 20 milhões de servos foram emancipados, representando aproximadamente 40% da população. Porém, a integração dessa parcela da população em uma economia modernizada não foi bem-sucedida. Além disso, o Império Russo permaneceu uma autocracia.

Simultaneamente a modernização econômica, o Império Russo continuava expandindo seu território nas regiões do Cáucaso e da Ásia Central. Nesse contexto de expansão, um evento demonstrou ainda mais sua fraqueza. Houve uma controvérsia sobre quem deveria ocupar a Manchúria: a Rússia ou o Japão.

O Japão venceu a Guerra Russo-Japonesa (1904-1905), marcando a primeira vez que uma nação asiática derrotou uma europeia. O Império Russo, que enfrentava agitações internas na época, aceitou a mediação do Presidente dos Estados Unidos, Theodore Roosevelt, e concordou em reconhecer a supremacia do Japão na Manchúria e na Coreia.

Entre revoluções e guerras

As modernizações iniciadas com Nicolau I não foram tão tranquilas como se esperava. O mesmo vale para seus sucessores, Alexandre II, Alexandre III (no poder de 1881 a 1894) e Nicolau II (no poder de 1894 a 1917).

Ao perceberem que não poderiam controlar as mudanças, eles adotaram políticas de contrarreforma contra os revolucionários. Essas políticas envolviam vigilância policial, censura, perseguição de populações não russas e a promoção do anti-semitismo. A situação se tornou mais tensa quando os revolucionários assassinaram Alexandre II em 13 de março de 1881.

A partir desse momento, movimentos populistas e revolucionários floresceram. Esses movimentos se organizaram tanto em partidos políticos, como o Partido Trabalhista Social-Democrata, quanto em organizações propagandistas, como a Vontade do Povo.

Vale ressaltar que o Partido Trabalhista Social-Democrata Russo se dividiu em duas facções: Bolchevique e Menchevique. Os revolucionários conquistaram apoio do proletariado devido às péssimas condições de vida que enfrentavam.

A revolução de 1905

A Revolução de 1905 foi desencadeada pela violenta repressão do governo russo a uma procissão em massa de trabalhadores liderada pelo padre Gregory Gapon em 22 de janeiro de 1905 e ficou conhecido como Domingo Sangrento.

Por trás desse evento, estava o descontentamento social e econômico do proletariado, do campesinato, da classe média, dos militares, das minorias étnicas e da nobreza liberal. Esse descontentamento se refletia em greves em todo o país, assassinato de funcionários do governo e motins militares.

Embora Nicolau II tenha concordado com o Manifesto de Outubro, que prometia uma monarquia constitucional com liberdades civis básicas e uma legislatura eleita, ele continuava a dominar o governo por intermédio do primeiro-ministro, Peter Stolypin.

Outra razão que contribuiu para Nicolau II manter o domínio sobre o governo, foi a falta de união dos reformadores, que estavam divididos entre os outubristas (conservadores moderados) e os cadetes (liberais moderados).

Da Primeira Guerra Mundial ao Império Soviético

Após a Revolução de 1905, o Império Russo se aliou à Tríplice Entente da Grã-Bretanha e França contra a Alemanha, a Áustria-Hungria e o Império Otomano.

Quando um terrorista sérvio assassinou o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austro-húngaro, o Império Austro-Húngaro declarou guerra à Sérvia. O Império Russo, que tinha tratados de amizade e defesa com a Sérvia, entrou no conflito, assim como os seus aliados da Tríplice Entente, dando início à Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

As deficiências do exército russo, como a falta de equipamento adequado, se tornaram cada vez mais evidentes em suas ofensivas. Em uma delas, realizada na Prússia Oriental e na Áustria-Hungria, os militares russos sofreram derrotas significativas.

Apesar de ter sido uma ofensiva bem sucedida, ela evidenciou a inépcia e a incompetência do governo, criando dificuldades sociais e econômicas internas.

Nessa situação de tensão com a guerra, a população (proletariado, campesinato e até os soldados) iniciou greves nacionais em 1916. Para amenizar as tensões internas, o poder legislativo continuou a discutir com a burocracia governamental sobre a condução da guerra e formou o Bloco Progressista visando estabelecer um governo verdadeiramente constitucional.

Nicolau II rejeitou o Bloco Progressista e continuou a defender a autocracia. Descontentes, manifestantes apelaram pelo fim da autocracia em março de 1917 na capital do Império. As tropas cossacas, por sua vez, recusaram-se a disparar contra os manifestantes e entregaram suas armas.

Nicolau II abdicou em 15 de março de 1917, encerrando o Império Russo. Várias formas de governos adotadas logo após a abdicação de Nicolau II falharam. Em outubro de 1917, a Revolução Bolchevique, liderada por Vladimir Lênin, conseguiu tomar o poder dos seus adversários políticos e estabeler o Império Soviético.

Estátua de Lênin.
Imagem: Estátua de Lênin.

Leia também: Rússia: como funciona o país de Vladimir Putin?

A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas

Mesmo que a URSS tenha formado um novo governo, permaneceu um elemento de similaridade entre os dois impérios. Em 1914 Lênin chamou a Rússia de prisão das nações pelo fato de que menos da metade da população total era de etnia russa.

Esse império multicultural e multiconfessional (ortodoxo, muçulmano, judeu, etc.) permaneceu sob o poder bolchevique. Apesar de toda a retórica “anti-imperialista”, a enorme URSS meramente revitalizou uma antiga condição.

E aí, entenderam como o Império Russo se tornou uma potência? E como foi sua queda? Deixem suas dúvidas nos comentários!

Referências:
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12 comentários em “A ascensão e a queda do Império Russo”

  1. Todos os imperadores que tentaram dominar o mundo foram derrotados por serem soberbos, egoístas e gananciosos .Desde a Antiguidade Clássica passando pelo Império Bizantino, Otomano,Romano e Império Russo, nenhum sobreviveu até hoje.,pois os deuses celestiais são muito mais poderosos do que qualquer país deste planeta chamada terra. Está dado o recado

  2. Mário Cavalcanti Nogueira Júnior

    A Rússia continua sendo uma potência cultural, multi-ética, militar, econômica e territorial.
    Infelizmente, se viu pêga na armadilha dos EUA, que a obrigou a entrar em guerra contra esse país na Ucrânia.
    De qualquer forma, desde que esse conflito não se generalize contra a OTAN, se fortalecerá ainda mais.
    Culturalmente, é a grande potência do último milênio.

  3. Paulo Tavares dos Santos

    Apesar de ser um resumo histórico, bem detalhado, faltou fatos violentos provocados pelo império, contra sua própria população, em meio á primeira grande mundial !!!

  4. Ccontextos deficitários algumas afirmações temerárias – tendenciosas, até -, além de erros materiais (ortografia), tornam pouco aproveitável a matéria.

  5. Francisco A B Silva

    Muito interesaante. Pode-se dizer que prevaleceu tant na fase do imperio quanto na fase dogoverno costitucional um totalitarismo. Essa é a imagem que temos da Russia de Putin.
    Por tudo isso e muito mais, posso dizer que essa tradiçào totalitarista, hoje, faz o povo russo sob influencia históricas acomodar-se ao atual regime. Eu diria que até sentem certa segurança na manutenção das suas tradições não ameaçadas pelos modismos mundo a fora de ideologia de generos e outros.
    Esse “conforto”, pode representar a segurança do povo na conservação dos seus costumes e tradições, mesmo em detrimento de uma liberdade plena e real.

    Francisco

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Conteúdo escrito por:

Taynara da Mata Moraes

Paranaense de origem, atualmente mora em Florianópolis, local onde se formou em Relações Internacionais na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Tem interesse em análise de dados e em temáticas envolvendo inovação, desenvolvimento socioeconômico e teoria política e econômica.
Moraes, Taynara. A ascensão e a queda do Império Russo. Politize!, 7 de fevereiro, 2024
Disponível em: https://www.politize.com.br/imperio-russo/.
Acesso em: 2 de abr, 2025.

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